Viver é dessas coisas que tomo como um desafio. Sou teimosa. Dentre aqueles que me conhecem, há quem me descreva como uma mulher forte, perseverante, admirável.
Ora pois, terei de contrariá-los um pouco: por acaso ser teimosa é ser brilhante, admirável? Por acaso seguir a missão de cumprir dias e noites é algo tão raro e admirável assim?
Não nego que costumo reagir razoavelmente bem aos percalços que a vida me apresenta. Mas que há nisso de força? Que há nisso de admirável? Confesso que nunca gostei muito de ser a síndrome viva de Drummond - aquela de quem repete incessantemente "no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra" - e por aí vai....
Ora, tinha uma pedra do meio do caminho? Tinha, tinha sim e ponto. Passei por ela, cumprimentei, acenando levemente com uma das mãos e segui meu caminho. O que de extraordinário há nisso? O que de admirável há? De sobrenatural? Aposto que qualquer um que, igualmente, tivesse acenado para a pobre pedra teria encontrado resultados semelhantes, ou melhores até! E seria admirável? Seria forte, perseverante? Não... Seria uma pessoa comum que, assim como essa que vos fala essas bobagens em forma de texto, superaria fatos, transporia situações um pouco mais complicadas, seguiria seu caminho sem ficar olhando as danadas das pedras que cruzou, sem martirizar-se pelas topadas que deveras levou. Viveria, enfim.
É isso que tenho feito até aqui. Minha vida é um mar de rosas? Não, certamente que não. É um caos? Absolutamente. Posso não ter (ainda) o emprego que almejo, (ainda) o homem que amo ao meu lado, (ainda) a conta bancária desejada, posso não ter as pessoas que amo e que a vida me levou, posso não ter um monte de outras coisas relevantes ou supérfluas como essas que citei. Mas sabe o que torna a minha vida muito boa? Sabe o que me faz amar a vida e querer dar até a última gota de mim por ela? É saber que existe uma força que me move(u) e protege(u) seja por quais caminhos segui ou seguirei ainda. É saber que essa força me faz crer que viver é nada mais do que ser teimosa frente às situações que a própria vida nos apresenta, que viver é ter dado um breve aceno às pedras que por mim passaram, sem tê-las gravado bem o rosto.
Não vejo nada de muito brilhante nisso... Não vejo nada de muito admirável, sobrenatural. Fora o fato de não ter a Síndrome de Drummond, sou bem normal. Vai ver é nisso que sou diferente: não gosto de colecionar pedras. :-)
