Sentidos
Lembrei-me outro dia do cheiro de suco de maracujá com biscoito mirabel que me acompanhava após as voltas da escola. Chegava em casa, abria a merendeira em cima da mesa da cozinha e... Ah! O cheiro de suco de maracujá com biscoito mirabel de morango! Quem diria que um reres "farelo" e poucos "ml" de uma borra preta ao fundo da vasilha me trariam sensações tais que me remeteriam aqueles doces dias de infância, em que as tranquilas voltas da escola eram sempre acompanhadas de uma sagrada descida na escorregadeira da prefeitura.
E quem mesmo, tendo vivido sua infância em São Gonçalo, não tenha dado bons escorregões em frente à prefeitura? Sair correndo, adiantando-se aos pais que ainda caminhavam há alguns metros, e dar duas ou três voltas ligeiras na escorregadeira. Lembrar de pegar duas ou três folhinhas de oiti para pregar uma peça em algum conhecido: "Você tomou banho hoje? - e a depender da resposta, virar a folhinha e perguntar - E porque está sujinho assim?"
Lembro-me, ainda, das tardes de Festa do Padroeiro - e aqui, não lembro ao certo se já na festa profana ou ainda na religiosa - em que ficava à porta da casa de minha avó esperando os blocos passarem: Banda Infernal; O Bloco dos homens Vestidos de mulher; um outro - e, aqui, perdoem-me ou ajudem-me já que não lembro o nome - que a cada ano trazia alguém que simulava um enterro , com direito a viúva, padre, um velório que sempre começava na Casa de Maru e nós crianças fazendo coro: "O homem morreu! O homem morreu!"; As caretas! Nossa! Sair correndo com medo das caretas que iam desfilando alegremente pelas ruas até encontrarem uma pobre inocente, como eu, que morria de medo e quando as via, corria em busca de uma boa cama, sob a qual pudesse esconder seu medo, sem sequer desconfiar, que talvez por trás daquela máscara estivesse o próprio dono daquela cama, ou um parente próximo dele;
Lembrar das procissões de Senhor morto. Da quarta-feira de Procissão das Mulheres durante a Semana Santa e da quinta, quando todos os homens da cidade pareciam sair de suas tocas cristãs para se redimirem de seus pecados. Sim! Porque lembro-me bem que, quando ia à Igreja durante todos os outros dias do ano, o exôdo masculino era evidente. Mulheres em sua grande maioria. Era pra minha mãe, pra minha avó ou pra alguma de minhas tias o lugar que eu guardava, quando chegava com duas horas de antecedência da celebração. Nunca pai, avô ou tios. Mas na Quinta-feira Santa a escala cristã de gênero se invertia e a cidade ficava muito bonita com a Procissão dos Homens, todos de roupa social, com uma vela à mão, anunciando a chegada do Senhor morto.
Comer pipoca de Gordo, ir atrás do Arrastão - quando você já tivesse idade pra isso - dançando ao som da Brilhaê, andar de bicicleta no Jardim da Estação, ir ao Show da Papel Carbono - ou a renomeada Metal Carbono¹ - no Espaço Popular, passar os finais de tarde jogando conversa fora na casa das tias, e/ou vizinhas, ir de manhã comprar leite em D. Beijo - cada qual com sua panela é claro, brincar nos Parques que, para a alegria dos pingos de gente como eu, volta e meia se instalavam na cidade na Praça J.J Seabra - ou Praça do Espaço, do Empório, da Mortuária ou qualquer outra loja que traduza as correntes denominações metonímicas tão comuns nos interiores.
É mais ou menos desse jeito que meus sentidos apontam a minha infância em Songa! Gosto de voltar lá, rever @s amig@s e a família na tentativa de sentir um pouco desses sentidos todos que contei aí em cima. Sentidos, atualmente, em muito já corroídos, sem as caretas, sem o "homem que morreu" - ao menos em tese - e sem a Pipoca de Gordo - que hoje em dia deve estar alegrando Pingos de Gente em Terrenos geológicos muito mais tranquilos do que a atual São Gonçalo. Na verdade, preocupo-me mesmo é com os atuais sentidos que estão sendo construídos.
Qual memória está sendo construída nos atuais pinguinhos de gente? Taí uma coisa pra se pensar.
¹Nossa! Aqui eu tive que ir longe pra conseguir lembrar! Rsrs! Longe, leia-se, perguntar ao irmão mais velho.
Lembrei-me outro dia do cheiro de suco de maracujá com biscoito mirabel que me acompanhava após as voltas da escola. Chegava em casa, abria a merendeira em cima da mesa da cozinha e... Ah! O cheiro de suco de maracujá com biscoito mirabel de morango! Quem diria que um reres "farelo" e poucos "ml" de uma borra preta ao fundo da vasilha me trariam sensações tais que me remeteriam aqueles doces dias de infância, em que as tranquilas voltas da escola eram sempre acompanhadas de uma sagrada descida na escorregadeira da prefeitura.
E quem mesmo, tendo vivido sua infância em São Gonçalo, não tenha dado bons escorregões em frente à prefeitura? Sair correndo, adiantando-se aos pais que ainda caminhavam há alguns metros, e dar duas ou três voltas ligeiras na escorregadeira. Lembrar de pegar duas ou três folhinhas de oiti para pregar uma peça em algum conhecido: "Você tomou banho hoje? - e a depender da resposta, virar a folhinha e perguntar - E porque está sujinho assim?"
Lembro-me, ainda, das tardes de Festa do Padroeiro - e aqui, não lembro ao certo se já na festa profana ou ainda na religiosa - em que ficava à porta da casa de minha avó esperando os blocos passarem: Banda Infernal; O Bloco dos homens Vestidos de mulher; um outro - e, aqui, perdoem-me ou ajudem-me já que não lembro o nome - que a cada ano trazia alguém que simulava um enterro , com direito a viúva, padre, um velório que sempre começava na Casa de Maru e nós crianças fazendo coro: "O homem morreu! O homem morreu!"; As caretas! Nossa! Sair correndo com medo das caretas que iam desfilando alegremente pelas ruas até encontrarem uma pobre inocente, como eu, que morria de medo e quando as via, corria em busca de uma boa cama, sob a qual pudesse esconder seu medo, sem sequer desconfiar, que talvez por trás daquela máscara estivesse o próprio dono daquela cama, ou um parente próximo dele;
Lembrar das procissões de Senhor morto. Da quarta-feira de Procissão das Mulheres durante a Semana Santa e da quinta, quando todos os homens da cidade pareciam sair de suas tocas cristãs para se redimirem de seus pecados. Sim! Porque lembro-me bem que, quando ia à Igreja durante todos os outros dias do ano, o exôdo masculino era evidente. Mulheres em sua grande maioria. Era pra minha mãe, pra minha avó ou pra alguma de minhas tias o lugar que eu guardava, quando chegava com duas horas de antecedência da celebração. Nunca pai, avô ou tios. Mas na Quinta-feira Santa a escala cristã de gênero se invertia e a cidade ficava muito bonita com a Procissão dos Homens, todos de roupa social, com uma vela à mão, anunciando a chegada do Senhor morto.
Comer pipoca de Gordo, ir atrás do Arrastão - quando você já tivesse idade pra isso - dançando ao som da Brilhaê, andar de bicicleta no Jardim da Estação, ir ao Show da Papel Carbono - ou a renomeada Metal Carbono¹ - no Espaço Popular, passar os finais de tarde jogando conversa fora na casa das tias, e/ou vizinhas, ir de manhã comprar leite em D. Beijo - cada qual com sua panela é claro, brincar nos Parques que, para a alegria dos pingos de gente como eu, volta e meia se instalavam na cidade na Praça J.J Seabra - ou Praça do Espaço, do Empório, da Mortuária ou qualquer outra loja que traduza as correntes denominações metonímicas tão comuns nos interiores.
É mais ou menos desse jeito que meus sentidos apontam a minha infância em Songa! Gosto de voltar lá, rever @s amig@s e a família na tentativa de sentir um pouco desses sentidos todos que contei aí em cima. Sentidos, atualmente, em muito já corroídos, sem as caretas, sem o "homem que morreu" - ao menos em tese - e sem a Pipoca de Gordo - que hoje em dia deve estar alegrando Pingos de Gente em Terrenos geológicos muito mais tranquilos do que a atual São Gonçalo. Na verdade, preocupo-me mesmo é com os atuais sentidos que estão sendo construídos.
Qual memória está sendo construída nos atuais pinguinhos de gente? Taí uma coisa pra se pensar.
¹Nossa! Aqui eu tive que ir longe pra conseguir lembrar! Rsrs! Longe, leia-se, perguntar ao irmão mais velho.